02 novembro 2017

Dona Chica

Na minha família paterna eram comuns as referências a uma antepassada perversa e malcriada que desdenhava de santos alheios, dava ordens sem parar e sem importar a quem e gostava de dizer, a cada um, as suas verdades. Tratava-se de uma criatura poderosa, um avantesma quase tribal, uma espécie de totem, de quem se sabia, ainda, uns restos de história. Tratava-se da dona Chica.
Quando as nuvens se faziam negras no horizonte, havia sempre quem dissesse,
“São horas de dona Chica”,
E quando a bagarre se formava entre as gentes,
“São quizílias de dona Chica”,
E quando a disputa se dava ao jogo,
“É psica da dona Chica”,
E quando a desobediência se fazia,
“São questões p’ra dona Chica”,
E quando um mistério profundo se avolumava,
“São coisas de dona Chica”,
E quando o menino não queria dormir,
“Vou chamar a dona Chica”.
E isto era para mim.
Mas quando!, que logo fechava os olhos, credo!
Tecnicamente falando, ela era minha 6a avó, ou seja: a bisavó do avô de meu avô. E tão poderosa era sua figura, em vida, que, morta, perdurou. E perdurou dessa forma que lhe deu forma aquando viva: amedrontando menino, desgostando gente e destratando parente. Assombrando, que assombrar sempre foi sua especialidade...
Quando perdi o medo dela, fui buscar saber melhor quem era. Cá e ali fui colhendo sua forma humana. Chamava-se Francisca, é claro. Maria Francisca de Paula da Gama Lobo d’Anvers. Era filha do tenente-coronel João da Gama Lobo, paraense de ascendência mazaganesa, e de sua esposa, a maranhense de São Luis, dona Joanna Paula Rubim d’Anvers. Nasceu na fazenda de seu pai, a Costa das Cuieiras, no atual município de Monte Alegre, no ano de 1778, passou a infância em Santarém e, depois de casada, com o cametaense Agostinho Pestana de Vasconcellos Brandão de Castro, futuro coronel da Briosa, ou seja, da Guarda Nacional, passou a residir em Belém. Primeiramente no Largo do Palácio, atual praça d. Pedro II, na casa de seu tio, o comerciante Manuel da Gama Lobo e, em seguida, em sua casa própria, no Largo do Carmo.
Do que soube, tinha um caráter voluntarioso, sabia ler e escrever – o que não era comum entre as mulheres de seu tempo, mesmo entre as mais ricas – e foi uma grande epistolária. Escrevia cartas e mais cartas, dando recomendações, conselhos e ordens. Mas também ensinando receitas de doce, falando de política e expressando suas percepções a respeito do comportamento alheio.
Consta de seu mito que se tratava de senhora mui zelosa do comportamento, seja o de sua gente, seja do alheio. Admoestava padres e bispos, generais e capitães, juízes de paz e juízes de fora. Falava aquém e não importa a quem. Dizia as verdades necessárias, sem importar se magoassem, ofendessem ou doessem. Era mulher de opiniões. De extremadas opiniões.
Suas cartas não restaram, mas o fato de se contar que foram muitas, me parece, constitui o indicativo de que houveram. Na verdade, sei o aconteceu com elas: foram parar dentro de um fogão, no forno-caldeira, lá jogadas pelas mãos insensíveis de Mirandolina Fernandes de Souza Castro, esposa de Antonino Emiliano de Souza Castro, o barão de Anajás, neto de dona Chica.
Há todo um conto por trás disso. Dona Mirandolina tinha implicâncias com a família do marido (deve ter sido maltrada pela avó do rapaz) e, quando pôde, pôs a perder as cartas tais. De pura maldade...
O barão, que foi um sujeito amante da história e guardador de lembranças da família, desde cedo colecionou as cartas da avó. As cartas escritas pela avó e, quando havia, também as cartas que esta recebia – as quais colheu aqui e ali. Saia mendigando-as, solicitando-as aos parentes distantes e aos amigos. Teria reunido uma boa coleção. Hoje, isso tudo seria um tesouro, a memória mais viva possível de dona Chica; mas bem, no contrapelo da história havia essa alma destrutiva que era a baronesa sua mulher. Um cão. Um cão de botas.
Só não contava era que mais tarde viesse eu, que acredito que a sublevação da ficção atêia o passado e que estou aqui, rente que nem pão quente, para revelar não apenas o seu crime como, também, a existência de dona Chica. E toma-te!
Na verdade, venho reiventando as cartas de dona Chica, imaginando-as e reescrevendo-as. Meus compromissos graves são com a ficção-história, e não com a história-ficção. E nessa tarefa tenho-a consultado, a ela, a dona Chica, sobre os assuntos de seu tempo e os do nosso.
Nem sempre ela se dá ao trabalho de me responder, pois não me considera boa coisa.
Com efeito, reprova, com veemência, meu gauchisme. Diz que sou intratável, irresponsável, pouco cristão, quase ignorante e que era melhor quando eu era menino e tinha medo dela.
A respeito de eu andar a reescrever as suas cartas, considera que bem fez aquele cão que era a Mirandolina, que as queimou e pronto. E que eu me exponho ao ridículo, sem qualquer necessidade, em fazer tal coisa.
Mas a nada disso levo muito em conta.

Apenas prossigo, adentro do tempo da memória – que não é apenas minha.

19 setembro 2017

Janot, o Procurador Geral da República, sai desmoralizado e deixa a justiça ainda mais desmoralizada

Terminou ontem o mandato de Rodrigo Janot como Procurador Geral da República. Sai desmoralizado e deixa uma Procuradoria Geral desmoralizada e com graves problemas. Mas isso não deve espantar ninguém. Tudo, nas grandes instituições da justiça brasileira, hoje, é desmoralização. Do MPF ao STF.
Janot poderia ter tido um papel de mediador da crise política que o Brasil atravessa, mas não teve maturidade e nem competência para isso. Preferiu, sempre, agir pautado pela grande encenação dos principais atores do golpe. Talvez, sonhando tornar-se um deles.
Agiu sempre deslumbrado pelo poder, procurando posar de astro, com essa peculiar pretensão à importância que possuem os coadjuvantes que eventualmente são alçados aos postos de poder.
Com efeito, o mandato de Janot foi do tipo “canoa”: ele foi levado pela maré, ou seja, pela mídia, pela narrativa da mídia e pelos interesses da camada golpista, dentre políticos e empresários. Janot nunca teve liderança: seguiu à reboque dos acontecimentos, procurando apenas aparecer à frente das câmeras e holofotes.
O resultado da incompetência e do amadorismo da sua gestão na Procuradoria Geral da República é o caos no qual o país foi lançado: as grandes empresas brasileiras estão sendo liquidadas; as grandes estatais, algumas absolutamente estratégicas para a soberania e para o desenvolvimento do Brasil, estão sendo vendidas a preço de banana para empresas internacionais; o orçamento público foi comprometido, a níveis mínimos, provocando o total sucateamento da saúde e da educação, por vinte anos; o desemprego está aumentando a passos largos; a justiça brasileira está desmoralizada; imensas reservas ambientais estão sendo cedidas ao agronegócio; o país perdeu todas as posições que ocupava na cena internacional e a quadrilha Temer continua no poder, assistida por outras inúmeras quadrilhas, todas juntas, sob o olhar da PGE, do Ministério Público, do STF, desmontando o país.

Janot deixa uma herança maldita para Raquel Dodge: milhares de processos mal instruídos e não aprofundados. Prevalecendo a justiça, quase toda a operação Lava Jato, por exemplo, será revertida por meio do simples dispositivo da apresentação de conflitos entre as versões.

12 setembro 2017

Indo para a Inglaterra

Carxs,
Passo rápido para me despedir. Indo logo mais para Albion, to be scientist at Cambridge. Como sabem, minha contumaz timidez nunca segura essa vontade de entender o mundo, e vou me metendo nessas enrascadas - and I don't even know if my rough english is enough para contar minhas histórias. De todo modo, a gente vai quando a maré empurra, mesmo quando se quer ficar. Forte abraço, amigos. Nos revemos em fevereiro, perto do carnaval chegar. Nos revemos, sobretudo. Quer dizer, se o golpe não crescer e impedir - mas forte abraço, tout de même.